Procurando o significado da palavra “brega” em um dicionário Aurélio de 1995, não encontrei. Deve ser coisa nova, moderna. Mais moderna como a semana de 22, que completou 80 anos. Brega no nordeste é sinônimo de zona de prostituição. Daí teria sido atribuído o adjetivo ao tipo de música que se tocava nesses locais.
Mas porque existe hoje tanto espaço para o brega? Será que os DJs são brega? Ou será que as gravadoras conseguem espaço na mídia pagando para serem incluídas na programação. O chamado Jabá ou Jabaculê, que é sinônimo de propina, gorjeta, dinheiro, seria então a maneira utilizada pelas gravadoras para fazer suas músicas “virar”, ou seja, fazer sucesso? Engraçado, que no início as TVs e as rádios é que pagavam aos artistas.
Hoje, no mundo tecnológico, profissionais como engenheiros, médicos, advogados, e outros, quanto mais se dedicam, estudam e se especializam, mais são valorizados profissionalmente. No entanto, músicos não tem a mesma sorte. Os que mais estudam e se dedicam, tem mercado de trabalho restrito, não aparecem na mídia, são desconhecidos do público.
Quem ocupa quase todo o espaço são os bregas, que do ponto de vista técnico são muito menos qualificados. Na TV aos domingos, podemos escolher passar o final de semana com o Silvio ou com o Faustão, mas as atrações musicais são as mesmas. Depois do regime militar, da ditadura, do AI-5, parece que ninguém mais tem coragem de censurar nada. É a tal liberdade de expressão. Mas não se pode permitir, a favor da liberdade de expressão e da lucratividade do capitalismo, que transformem toda a nossa cultura em plástico barato, vendável.
Iniciativas de se realizar mini-séries como “Chiquinha Gonzaga”, ou a de se exibir filmes como “Villa Lobos – Uma vida de paixão”, são muito valiosas. As concessões de rádio e televisão pertencem ao governo, que pode abrir ou fechar emissoras, além de regulamentar sua utilização. O Estado pode estimular a produção e a exibição de programas que informem, eduquem, divulguem a cultura e nomes de relevância nacional. Hoje, muitos adolescentes não sabem quem foi Noel Rosa ou Ary Barroso. Outros nunca ouviram falar em Tom Jobim ou Chico Buarque de Holanda. Quando os pais ouvem em casa, músicas que não tocam na mídia, os filhos podem ter liberdade de escolha. Mas se isso não acontece, as crianças não terão essa oportunidade e só vão ouvir o que esta na mídia.
Ou seja, grande parte da população não tem direito de escolha e acesso à cultura, à educação e à programas de qualidade. Ser brega por opção é compreensível. Mas ser brega por ignorância, por imposição da mídia, por falta de opção é inaceitável. A música popular brasileira é uma das coisas mais importantes da cultura nacional, sendo reconhecida internacionalmente e está sendo perdida, esquecida pela nova geração.
Qual a função de uma concessão de rádio e televisão? No caso de outras concessões, dá até pra adivinhar. O Estado para não se envolver em atividades consideradas não essenciais e evitar a expansão demasiada do setor público, concede esses serviços à iniciativa privada, que tem metas a cumprir e padrões de qualidade a serem seguidos, além, logicamente, da obtenção do lucro pelos trabalhos prestados.
A concessão de telefonia, precisa implantar novas linhas, modernizar o sistema, ou seja, resolver o problema da telefonia para o Estado, oferecendo um bom serviço, para poder cobrá-lo. A concessão de rodovias precisa operar o trânsito, informar o usuário, conservar o pavimento, sinalizar, duplicar e não apenas cobrar pedágios.
Mas no caso dos meios de comunicação, qual é a contrapartida à coletividade e ao poder público que lhe dá a concessão para operar? Há uma função social, educativa, cultural? Seria apenas um negócio lucrativo, onde se vende propaganda e se veicula programação estritamente comercial,, para obter mais lucro? Não seria isso, apenas o direito de cobrar pedágio sem prestar nenhum serviço?
Num país onde existe a miséria, a ignorância, onde as pessoas necessitam de instrução, de cultura e até de informação básica sobre saúde, despeja-se um mar de inutilidades com a única justificativa de aumentar a audiência. O governo pode utilizar os meios de comunicação para melhorar a educação e a cultura do povo, complementando a tradicional educação escolar. É preciso uma nova regulamentação para o setor e incentivos à produção de programas de qualidade, que acrescente algo, pelo menos num determinado percentual da programação.
O cidadão não tem o direito de escolher? O direito de conhecer o que existe? O direito à informação, à educação, à cultura? Quem sabe que música está se fazendo em outras partes do mundo, no Japão, na Arábia, na China, na Índia? Porque temos de ouvir só música americana?
Somos muito ignorantes. Há muito que se aprender. Se “A Voz do Brasil” é obrigatória, se a “Propaganda Eleitoral” é obrigatória, por que então, não se utilizar os meios de comunicação para levar um pouco de cultura e educação ao povo brasileiro?
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